Reconstrução total - Pós-parto

Vale a pena correr o risco de uma plástica logo após a gravidez só para ficar bonita? Conheça os prós e contras dos pacotes pós-parto que fazem sucesso nos Estados Unidos (e no Brasil) e saiba a hora certa de fazê-los



Silvia tinha tudo com o que sempre sonhou: um emprego bacana, um parceiro companheiro, um filho que era a razão de sua vida e até uma babá de confiança. Sua vida estaria completa se não fosse por um mero detalhe: o corpo dela tinha mais quilos e peles sobrando do que nunca. Você convive com esse mesmo drama no reflexo do espelho? Saiba que não está sozinha. Muitas mulheres sofrem com as marcas que a gestação deixa no corpo, desde estrias até flacidez. A questão é o que fazer com elas.



As opções são diversas. Matrícula na academia, cadeado na geladeira, nutricionista ou até a cirurgia plástica. Pois é... Infelizmente, em alguns casos esta é a única alternativa que traz os resultados estéticos desejados. Mas antes de pular etapas e entrar na faca, é bom se certificar de que seu corpo realmente precisa passar pela operação (afinal, a gravidez pode deixar algumas curvas que você não tinha antes!) e, acima de tudo, saber quando é a hora certa de fazê-la. Se você acha que as dores da recuperação valem cada gota de suor que não caiu na esteira, é bom pensar duas vezes. Uma cirurgia plástica pouco depois do parto pode não sair do jeito que espera e ainda afetar o bem mais precioso: seu filho.


Para perder quilos com facilidade e definir o corpo pós-parto, as americanas têm apostado em um pacote de cirurgias plásticas chamado Mommy Job ou Mommy Makeover, numa alusão clara aos programas de TV que reconstroem casas e pessoas. Consiste em três operações: plástica no abdome, lipoaspiração e levantamento dos seios (com ou sem implante de silicone). Segundo as clínicas que fazem o procedimento, ele vai devolver às mães o corpo que é delas por direito, ou seja, o de antes da gestação. 'Enquanto todos acham as crianças maravilhosas, ninguém comenta sobre os custos físicos da mulher para trazer alegria ao mundo. Estrias e mamas deformadas, barrigas salientes, ganho de peso nos quadris, aqueles pneus horríveis e coxas grossas são o que elas recebem em troca pelo bebê', diz o site de uma clínica em Beverly Hills, na Califórnia. O anúncio catastrofista costuma fisgar freguesas, tanto que, de acordo com dados da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos, a procura pelo pacote aumentou 11% de 2005 para 2006, crescendo cinco vezes mais em relação às outras cirurgias plásticas. Estima-se que foram feitas mais de 325 mil intervenções cirúrgicas desse tipo em mães entre 20 e 39 anos.


Os mesmos dados não existem no Brasil, que, diga-se de passagem, é o vice-campeão em plásticas no mundo (o primeiro lugar é norte-americano), realizando mais de 616 mil cirurgias em 2004 - e a lipoaspiração é responsável por mais de 198 mil delas. Apesar da falta de dados, o Mommy Makeover existe por aqui, ainda que não seja vendido com esse nome. A rotina nos consultórios confirma a tendência. 'Já vi paciente chamar o cirurgião plástico para mexer na barriga assim que o parto termina', diz Eduardo Zlotnik, obstetra do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. O raciocínio parece óbvio: esperar o tempo determinado pela natureza para emagrecer ou resolver o problema ali, uma vez que já está anestesiada? Mesmo com a medicina avançada, a melhor alternativa ainda é a primeira opção.


'Uma mulher que acabou de ter filho está inchada, e não existem parâmetros exatos para realizar uma plástica bem-feita. Por exemplo, como saber o tamanho ideal dos seios se eles estão cheios de leite?', questiona Eduardo Fakiani, chefe da Cirurgia Plástica do Hospital São Luiz, em São Paulo. Sem contar a possibilidade de sair da mesa de cirurgia com uma silhueta aquém da esperada, mães que optam pela vaidade ainda correm risco no procedimento. 'Como as grávidas são mais predispostas à coagulação sanguínea, as chances de tromboses e embolias são altas', diz Soubhi Kahhale, coordenador da Obstetrícia do Hospital São Luiz e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).


Outro fator negativo está relacionado ao aleitamento. 'Em uma cirurgia dessas, a mulher perde água, sangue e calorias. Isso afeta a amamentação, podendo secar o leite ou alterar seu sabor, com o risco do bebê rejeitá-lo', diz Flávio Garcia de Oliveira, médico ginecologista e obstetra, autor do livro E Depois do Parto? (Ed. Matrix). É por essas e outras que o conselho médico é claro em relação à cirurgia plástica: pode fazer, desde que espere no mínimo três meses após o fim da amamentação ou seis meses depois do parto, no caso de não estar amamentando. Assim, há tempo para o organismo se recuperar e desinchar. Também é preciso analisar bem o que operar. O Mommy Makeover, assim como qualquer outro pacote oferecido com intuito de baixar o custo da cirurgia, pode levar a mãe a fazer a plástica não porque precisa, e sim porque está inclusa. 'É um meio de se oferecer medicina como comércio, o que é contra o Código de Ética Brasileiro', diz Douglas Jorge, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.


O mito da boa forma
Se a operação é tão perigosa, por que as mães que acabaram de dar à luz ainda se arriscam em nome da estética? Para Denise Bernuzzi d'Santanna, historiadora e professora da PUC-SP, são três razões. 'Nos anos 60, a mulher descobriu que podia seduzir sexualmente o tempo todo. Desde então, ser sedutora é tão importante quanto ser mãe, e ela quer as duas coisas. O segundo motivo é que a sedução passou a ser atrelada à saúde, estampada por um corpo enxuto, e ser saudável significa ser sexualmente feliz. Por último, há o mito de que a boa forma é símbolo de sucesso e poder social, pois uma mulher magra seria mais ágil no trabalho.' Trocando em miúdos, é a idéia de que, para ser uma boa mãe, é preciso se dar bem em tudo: nos lençóis, na mesa do trabalho e dentro de um biquíni.




Infelizmente, esta mágica ainda só acontece aqui
Existe, também, a crença de que podemos mudar nosso corpo da mesma forma que escolhemos uma coloração diferente para o cabelo. 'Assim como a maternidade deixou de ser destino e se tornou escolha, também parece ter se tornando opção feminina ser ou não magra', explica Denise. Para Miguel Sabino Neto, professor-adjunto de Cirurgia Plástica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o maior erro é vincular a gestação a um corpo deformado. 'Não se deve atrelar a plástica à gravidez. Já recebi gestantes que queriam fazer a cirurgia junto com o parto, mas digo para elas cuidarem da balança e deixarem o corpo voltar normalmente. Se sobrar algo indesejado, arrumam depois.'


Foi o que fez Heloisa Rivadvia, de 39 anos. Quatro anos depois do nascimento do segundo filho, a administradora sucumbiu à plástica. 'Fiquei dois anos mastigando a hipótese. Com dieta e esporte, voltei ao meu peso nas duas gestações, sendo que na primeira engordei mais de 20 quilos por causa de um princípio de pré-eclâmpsia. Ainda assim, ficaram sobras no abdome e os seios estavam diferentes. Só lipoaspiração nas coxas, plástica na barriga e implante de silicone resolveram o problema', afirma. Já Daniele Repetti, de 32 anos, secou os 12 quilos da gestação em três meses. Para ela, o que deu certo foi se exercitar antes, durante e depois da gravidez. 'Tenho hérnia de disco e, por causa da atividade física, não senti dor durante toda a gravidez. Os exercícios ajudaram na preparação para o parto e na recuperação', diz.


Anatomia da gravidez
Seios
Suas mamas ficarão pesadas e cheias de leite. Para evitar a flacidez na pele, é bom usar um sutiã com sustentação reforçada durante e depois da gravidez.
Barriga
A pele da barriga estica durante a gravidez, deixando-a flácida. Nada de desespero: se você não engordar demais, ela volta ao normal sem dramas. Caso contrário, prepare-se para uns abdominais adicionais.
Quadril
Muitas mulheres reclamam do tamanho do quadril depois da gravidez. Na verdade, os ossos da região aumentam de largura para facilitar a passagem do feto. Não se preocupe, em poucos meses as ancas voltarão ao normal.
Estrias
Sabe o que acontece com a barriga que triplica de tamanho em pouco tempo? Se você cuidar dela, passando hidrante todos os dias e bebendo muita água, talvez nada. Caso contrário, pode ser vítima das temidas estrias, que também podem dar o ar da graça nos seios. Para preveni-las, a solução é não ganhar muito peso e se empanturrar de cremes.


Em forma e sem cirurgia
Enquanto você aguarda o tempo passar e vê se a plástica será necessária, é preciso fazer a sua parte para realizar o desejo de desfilar numa calça skinny o quanto antes. Veja as dicas para entrar em forma e os conselhos dos especialistas:


• Lembre-se que a gordura da gravidez é para a produção do leite materno. Assim, a amamentação ajuda a perder peso
• Faça atividades físicas assim que seu obstetra liberar, começando aos poucos, com caminhadas e hidroginástica
• Cuide-se quando a gravidez estiver apenas nos planos. Engravide com o peso ideal e, durante e após a gestação, alimente-se bem
• Consuma produtos com baixo teor de sódio, pois retêm líquidos
• Aumente a ingestão de alimentos integrais e ricos em gordura vegetal (como amêndoas e azeite de oliva) e potássio (presente em vegetais verde-escuros e frutas), controle o açúcar e fracione bem a dieta, comendo pouco e até oito vezes por dia
• Não deixe de se exercitar durante a gravidez. A atividade física reduz dores nas costas, ajuda na postura, fortalece os músculos e alivia o estresse. Mas converse com seu médico antes
• Algumas academias oferecem aulas exclusivas para gestantes, que contam com exercícios localizados, de respiração (para fortalecer o períneo) e alongamento
• Pela estimativa dos médicos, a mulher leva de seis meses a um ano para voltar ao corpo de antes da gestação. Portanto, controle a ansiedade e se concentre no bebê! Cuidar dele já vai garantir uma perda considerável de calorias...


Fontes: Ana Paula Maeda, nutricionista do Centro Universitário São Camilo (SP), Samantha Ottani Rhein, nutricionista e mestre pela Unifesp (SP), Bruno de Lima, professor de musculação da A!Body Tech Academia (RJ)
Revista Crescer

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